O Homem que os raios procuravam
Durante décadas, Roy Sullivan sobreviveu a acontecimentos que deveriam tê-lo matado. A sua história tornou-se uma das mais improváveis do século XX.
Roy Cleveland Sullivan nasceu a 7 de fevereiro de 1912, em Greene County, Virgínia. Era o quarto de onze filhos de Arthur e Ida Bell Sullivan, uma família das Blue Ridge Mountains. Décadas mais tarde, quando se tornou guarda-florestal no Parque Nacional de Shenandoah, acabaria por patrulhar a mesma região onde tinha crescido. Era um de apenas três guardas responsáveis pelos cerca de 64 quilómetros entre Waynesboro e Swift Run Gap, uma paisagem que conhecia desde criança e que ficava a menos de treze quilómetros da sua terra natal.

Em 1936, aos vinte e quatro anos, entrou para o corpo de guarda-florestais do parque. O trabalho era variado. Num dia podia estar a patrulhar trilhos ou a ajudar visitantes perdidos. Noutro, podia participar no combate a incêndios ou percorrer estradas remotas para verificar o estado das infraestruturas do parque.
Naquela época não existiam satélites, drones nem sistemas automáticos de deteção. A forma mais eficaz de vigilância de incêndios era colocar uma pessoa num ponto elevado e pedir-lhe que observasse o horizonte.
Por essa razão, o parque mantinha várias torres de observação construídas nos pontos mais altos das montanhas. A partir delas era possível avistar colunas de fumo a dezenas de quilómetros de distância e alertar rapidamente as equipas em terra.
Roy, de tempos a tempos, era destacado para turnos de vigilância, passando horas sozinho acima das árvores, exposto ao vento, à chuva e às tempestades que atravessavam regularmente aquelas montanhas.
Décadas mais tarde, já depois de se tornar famoso, confessaria aos jornalistas:
— Sempre tive medo dos raios.
Numa tarde de abril de 1942, Roy Sullivan encontrava-se de serviço numa das torres de observação do Parque Nacional de Shenandoah. Era um trabalho rotineiro e, até certo ponto, monótono. Horas passadas a observar o horizonte e a esperar que nada acontecesse.
Ao longe começou a formar-se uma tempestade. As nuvens escureceram o céu, o vento aumentou de intensidade e os primeiros trovões ecoaram pelas montanhas. Roy já tinha assistido a inúmeras trovoadas ao longo da sua carreira, mas havia um detalhe que tornava aquela situação particularmente perigosa: a torre onde se encontrava não possuía para-raios.
Pouco depois, um relâmpago atingiu a estrutura. Seguiu-se outro. E depois outro. A cada descarga, a torre estremecia. O local que tinha sido construído para proteger a floresta parecia agora uma armadilha suspensa acima das árvores.
Roy decidiu abandonar a torre. Desceu rapidamente as escadas e correu para se afastar da estrutura. Não chegou longe. Um relâmpago atingiu-o e a descarga percorreu-lhe a perna direita até sair pelo pé. O impacto arrancou-lhe a unha do dedo grande do pé e deixou-o atordoado.
Sobreviveu ao acidente e recuperou dos ferimentos. Durante muitos anos recordaria aquele episódio como o pior relâmpago que o atingiu ao longo da vida. Naquele momento, porém, não tinha forma de saber isso. Para qualquer pessoa, sobreviver a um raio seria uma história extraordinária para contar aos amigos e à família.
Para Roy Sullivan, era apenas a primeira.
Roy continuou a trabalhar no Parque Nacional de Shenandoah. O episódio de 1942 transformou-se numa daquelas histórias improváveis que se contam ocasionalmente a colegas ou amigos. Tinha sobrevivido a um raio. Era uma experiência rara, mas não inédita. A vida seguiu em frente.
Até julho de 1969.
Nesse dia, Roy conduzia uma carrinha por uma estrada do parque quando uma tempestade se formou sobre as montanhas. Estava protegido dentro do veículo, um lugar que a maioria das pessoas consideraria seguro durante uma trovoada. Foi então que um relâmpago atingiu a viatura.
A descarga entrou pela janela aberta, atravessou o interior da carrinha e atingiu Roy. O impacto deixou-o inconsciente durante alguns instantes. Quando recuperou os sentidos, as sobrancelhas tinham desaparecido e o cabelo estava em chamas.
Conseguiu parar o veículo e apagar o fogo antes que os ferimentos fossem mais graves. Era a segunda vez que um relâmpago o atingia.
Desta vez, porém, começou a surgir uma ideia estranha. Uma coincidência deixa de parecer coincidência quando acontece duas vezes.
Roy guardou o chapéu que usava naquele dia. Mais tarde guardaria outro. E depois outro. Com o passar dos anos, acabaria por reunir uma coleção improvável: chapéus queimados pelos relâmpagos a que sobrevivera.

Talvez fosse uma forma de rir da situação. Talvez fosse apenas uma maneira de provar a si próprio que aquilo tinha mesmo acontecido.
Se o segundo raio tinha sido uma coincidência extraordinária, os acontecimentos seguintes começaram a parecer outra coisa.
Menos de um ano depois, em julho de 1970, Roy encontrava-se no quintal de casa quando uma tempestade se aproximou. Já não era o guarda-florestal que sobrevivera a um único acidente raro. Era um homem que tinha sido atingido duas vezes por relâmpagos e que observava o céu com uma atenção crescente.
A tempestade aproximou-se. E o relâmpago também.
A descarga atingiu-o novamente, queimando-lhe o ombro esquerdo. Roy sobreviveu mais uma vez, mas a ideia de que tudo aquilo podia ser apenas azar começava a tornar-se difícil de sustentar.
Dois anos mais tarde, em 1972, voltou a acontecer.
Desta vez estava de serviço no parque quando um relâmpago o atingiu na cabeça.
Mais tarde descreveria o momento:
Houve uma chuva miudinha, mas nenhum trovão até um único estrondo, a coisa mais alta que alguma vez ouvi. O fogo andava aos saltos dentro do posto dos guarda-florestais e, quando os meus ouvidos pararam de zumbir, ouvi qualquer coisa a chiar. Era o meu cabelo a arder.
Roy conseguiu apagar as chamas, mas o episódio deixou uma marca curiosa nos seus hábitos. A partir daí começou a transportar um recipiente com água no veículo. Não era para beber nem para emergências mecânicas. Era para apagar o próprio cabelo caso voltasse a ser atingido.
Os colegas começaram a olhar para ele de forma diferente. Alguns brincavam com a situação. Outros preferiam manter distância durante as trovoadas. O próprio Roy recordaria mais tarde um episódio revelador. Certo dia caminhava com o chefe dos guarda-florestais quando um relâmpago caiu ao longe. O chefe olhou para o céu, olhou para Roy e despediu-se:
— Vejo-te mais tarde.
A frase ficou-lhe na memória.
A fama espalhou-se pelo parque. Entre os guarda-florestais surgiu até uma espécie de regra não escrita. Anos mais tarde, o colega Robert Jacobsen resumiria-a a um jornalista:
Se vires uma nuvem escura a vir na tua direção, afasta-te do Roy Sullivan.
Havia quem falasse em maldição. E havia Roy, que começava a ter as suas próprias dúvidas.
Anos mais tarde contaria que, por vezes, via uma nuvem aproximar-se e tinha a sensação de que ela vinha atrás dele. Parecia absurdo. Ele sabia disso. Mas depois de quatro relâmpagos, o absurdo começava a parecer uma explicação tão razoável como qualquer outra.
Em agosto de 1973, Roy patrulhava uma estrada do Parque Nacional de Shenandoah quando reparou numa nuvem escura a formar-se sobre uma das montanhas. Não era uma tempestade que ocupasse todo o horizonte nem uma frente de mau tempo particularmente impressionante. Segundo o seu relato, tratava-se de uma única nuvem isolada.
Ao vê-la, sentiu um desconforto imediato. Nos quatro anos anteriores já tinha sido atingido quatro vezes por relâmpagos. O suficiente para que uma simples nuvem de trovoada deixasse de ser apenas uma nuvem. Entrou na carrinha e decidiu afastar-se.
À medida que conduzia, continuava a olhar pelo espelho retrovisor. Mais tarde contaria que tinha a sensação de que a nuvem o acompanhava. Mudou de direção. Acelerou. Continuou a conduzir. Mas a impressão não desapareceu.
Foi então que o relâmpago caiu.
A descarga atingiu-o e incendiou-lhe novamente o cabelo. Roy conseguiu parar a carrinha e sair para a estrada. Levava consigo um recipiente com água, um hábito adquirido depois dos incidentes anteriores. Usou-o para apagar as chamas antes que os ferimentos fossem mais graves.
Anos mais tarde, ao recordar aquele episódio, insistiria sempre na mesma versão dos acontecimentos. Dizia que aquela nuvem o tinha seguido. É uma afirmação difícil de aceitar. Mas também é difícil aceitar que o mesmo homem tenha sido atingido por cinco relâmpagos em pouco mais de trinta anos.
Nessa altura, a história de Roy Sullivan já começava a ultrapassar os limites do que parecia razoável. Mesmo para ele.
Em 1976 aconteceu novamente.
Roy encontrava-se no parque quando um relâmpago o atingiu no tornozelo. Sobreviveu, como sempre sobrevivera. A notícia já não surpreendeu tanto os colegas. A essa altura, o homem que parecia atrair relâmpagos era uma figura conhecida dentro e fora de Shenandoah.
Menos de um ano depois, em junho de 1977, veio o sétimo incidente. Desta vez a descarga atingiu-lhe o peito e o estômago. Mais uma vez escapou com vida.
Sete relâmpagos.

Mesmo para os meteorologistas, a sucessão de acidentes era difícil de compreender. Durante anos surgiram estimativas sobre a probabilidade de alguém ser atingido tantas vezes. Os números variavam consoante os cálculos utilizados, mas todos apontavam para a mesma conclusão: tratava-se de um acontecimento extraordinariamente improvável.
Em 1972, quando já tinha sido atingido quatro vezes, o Guinness World Records registou-o como “o único homem vivo atingido por um raio quatro vezes”. A notoriedade trouxe entrevistas, programas de televisão e até uma participação no concurso norte-americano “To Tell the Truth”. Mais tarde seria entrevistado por David Frost.
Curiosamente, apenas os primeiros quatro relâmpagos foram formalmente documentados e submetidos ao Guinness. Os três últimos basearam-se sobretudo nos relatos do próprio Roy. Alguns céticos questionaram-nos. Outros respondiam com uma pergunta simples: porque haveria alguém que já tinha sobrevivido a quatro relâmpagos de inventar mais três?
A fama chegou tarde à sua vida e de uma forma que ninguém desejaria. Roy passou a ser fotografado ao lado dos chapéus queimados que guardara ao longo dos anos. Em algumas imagens segura-os como troféus. Noutras parece apenas cansado.

Afinal, a maioria das celebridades é conhecida por algo que procurou alcançar. Roy tornou-se famoso por ter sobrevivido repetidamente a algo que passou a vida inteira a tentar evitar.
Os relâmpagos acabaram por tornar Roy Sullivan famoso, mas não eram o único perigo com que lidava nas montanhas de Shenandoah.
Ao longo da sua carreira como guarda-florestal, afirmou ter tido pelo menos vinte e dois confrontos com ursos-negros. A maioria das pessoas passaria uma vida inteira sem se encontrar cara a cara com um único urso selvagem. Roy parecia encontrá-los com uma frequência pouco habitual.

Numa ocasião contou ter afastado um urso utilizando um ramo de árvore. Noutras, descreveu encontros que terminaram em perseguições, ameaças e confrontos físicos. É difícil verificar cada uma dessas histórias individualmente, mas elas surgem repetidamente associadas ao seu nome e ajudam a compreender o ambiente em que passou grande parte da vida: montanhas isoladas, florestas densas e animais que podiam tornar-se perigosos quando surpreendidos ou encurralados.
Roy gostava particularmente desta parte da sua história. Talvez porque os ursos fossem um adversário mais fácil de compreender do que os relâmpagos. Um urso pode atacar, recuar ou fugir. Há uma lógica no seu comportamento. Com os relâmpagos era diferente.
A certa altura chegou mesmo a afirmar:
— Acredito que sou a pessoa que mais vezes lutou com ursos e sobreviveu.
Não existe registo de alguém ter confirmado a afirmação. Mas, depois de ouvir a história dos sete relâmpagos, poucos pareciam dispostos a discutir estatísticas com Roy Sullivan.
Seja como for, há qualquer coisa de revelador neste detalhe. O homem que entrou para o Guinness por sobreviver a sete relâmpagos não passou a vida a esconder-se do perigo. Continuou a caminhar pelas mesmas montanhas, a fazer o mesmo trabalho e a enfrentar os mesmos riscos que sempre enfrentara.
No início da década de 1980, Roy Sullivan já estava reformado. Mudou-se para Dooms com a quarta mulher e tomou uma precaução curiosa. Mandou instalar vários para-raios na propriedade. Depois de uma vida inteira a fugir das tempestades, queria finalmente sentir-se seguro em casa.
O homem que sobrevivera a sete relâmpagos tornara-se uma curiosidade nacional. O seu nome aparecia em jornais, livros de recordes e programas de televisão. Pessoas que nunca tinham ouvido falar do Parque Nacional de Shenandoah conheciam a sua história.
Mas a fama raramente mostra a vida inteira de uma pessoa.
Os artigos falavam dos relâmpagos, dos chapéus queimados e das probabilidades quase impossíveis de alguém sobreviver a tantos acidentes. Falavam pouco do homem por trás da história. Falavam ainda menos da solidão que pode acompanhar uma reforma depois de décadas passadas num trabalho exigente e ao ar livre.
Foi durante esse período que Roy se apaixonou por uma mulher.
Os detalhes perderam-se em grande parte com o tempo. O que chegou aos jornais depois da sua morte foi a descrição de um homem profundamente afetado por uma relação que não evoluiu da forma que esperava. Amigos e pessoas próximas relataram que se encontrava emocionalmente abalado.
É difícil saber exatamente o que sentia. O que sabemos é que, nessa fase da vida, Roy enfrentava um problema para o qual não existiam estatísticas, previsões meteorológicas ou recipientes de água para apagar incêndios.
Durante décadas sobrevivera a acontecimentos que matavam instantaneamente outras pessoas. Enfrentara relâmpagos, tempestades, incêndios e até ursos. No entanto, como acontece a tantos seres humanos, descobriu que existem feridas contra as quais a coragem física oferece pouca proteção.
Roy passara anos a tentar proteger-se. Instalara para-raios em casa. Evitava tempestades sempre que podia. No entanto, o sétimo relâmpago atingira-o longe dali, enquanto pescava.
Nenhuma dessas precauções teve importância na madrugada de 28 de setembro de 1983.
Roy Sullivan morreu aos 71 anos.
A causa oficial da morte foi suicídio. Utilizou uma arma de fogo. Segundo a investigação, o disparo ocorreu por volta das três da manhã. A mulher dormia ao seu lado e não acordou. A morte só seria comunicada horas depois.
Os jornais que noticiaram o caso referiram que atravessava um período difícil e associaram a sua morte a um desgosto amoroso. Como acontece frequentemente nestas situações, os detalhes exatos perderam-se em grande parte com o tempo. Ficaram apenas os factos essenciais e as recordações das pessoas que o conheceram.
A notícia surpreendeu muitos dos que acompanhavam a sua história. Durante décadas, Roy parecera desafiar as probabilidades. Sobrevivera aos sete relâmpagos pelos quais ficou conhecido, enfrentara incêndios florestais, passara grande parte da vida em montanhas isoladas e afirmava ter sobrevivido a mais de vinte encontros com ursos.
Era fácil olhar para ele como alguém invencível.
Mas a vida raramente respeita as histórias que construímos sobre as pessoas.
Quando a notícia da sua morte chegou aos jornais, muitos artigos recordaram os relâmpagos. Era inevitável. Tinham sido eles que o tinham tornado famoso. Ainda hoje, décadas depois, o nome de Roy Sullivan continua associado a um recorde que dificilmente será ultrapassado.
No entanto, talvez a sua história diga menos sobre relâmpagos do que sobre outra coisa.
Mesmo as pessoas que parecem sobreviver a tudo continuam a ser humanas.



