A Febre das Coisas

Quando eu entrei estava pequeno

Meses sem surfar, uma vontade adormecida e um dia em que o mar voltou a chamar — da ansiedade à água, da vergonha ao amor que nos mantém vivos.

Os dias vão acontecendo, as prioridades empurram as vontades para o final da fila, as tarefas diárias são sempre mais urgentes que as vontades que levamos dentro, e o trabalho é sempre o primeiro da lista, porque é este que nos alimenta a carteira, e muitas vezes, a carteira somente.

Assim foram passando os meses, mais de seis meses passaram, e eu sem meter um único dia a prancha dentro d’água. Deixei de nutrir essa vontade e ela aos poucos foi-se escondendo em algum lugar remoto do corpo. Algures, numa escura arrecadação das minhas entranhas, aí onde há um corredor com tantas outras arrecadações. Cheira a abandono, cheira a garagem fechada que nunca é arejada, cheira a cemitério de desígnios deixados e esquecidos.

São partes de nós adormecidas, a vida vai acontecendo e às tantas esquecemos o que viemos fazer a esta vida.

Bem sabia o que tinha de fazer para localizar essa arrecadação e encontrar essa vontade adormecida. Empurrei uma tarefa, fechei os ouvidos para outra, agarrei uns minutos peguei no carro e fui até ao mar. Passei a praia do matadouro, virei à esquerda, fiz esse caminho de terra batida, estacionei perto da praia, aí onde fica a praia da pedra branca. Saí do carro e fiquei de frente para o mar. Durante uns minutos a maresia apaziguou-me os pensamentos, os olhos beberam todo esse azul que nunca acaba e o som das ondas a rebentarem davam o conforto de quem finalmente encontra o que procura. Algures nas minhas entranhas, a vontade de surfar começou a mexer-se. Passaram uns minutos, entrei no carro e fui-me embora.

Dois dias passaram, deixei loiça na bancada da cozinha por lavar, esquivei a rotina, peguei no carro e voltei ao mesmo sítio. O mesmo percurso, a terra batida e cheguei à Pedra Branca. Saí do carro. O calor do sol abraçou-me, o vento meigo que vinha de terra saudou-me e o oceano está sempre aí para receber-te. Com esse aconchego de quem finalmente em casa se encontra, relaxei o corpo, desliguei a rádio dos pensamentos, e fiquei a observar as ondas. Cada onda que rebentava chamava por mim, vem, vem … A vontade tentada começou timidamente a sair desse lugar escuro onde se tinha escondido. Fiquei mais uns minutos e a vontade já dava os primeiros passos pela barriga. Hoje não podia, mas essa vontade já não podia ser escondida, precisava de surfar. Peguei no carro e voltei para o comboio das tarefas, próxima paragem, dar um jeito na cozinha. A pilha de loiça esperava-me. Há sempre uma tarefa à nossa espera.

Já passava da meia noite, pouco antes de me deitar, fui ver a previsão das ondas, ventos e marés para os próximos sete dias. Quinta-feira, tudo indicava que dentro de quatro dias, os ventos e a ondulação se iriam alinhar e à hora de almoço a maré estaria de feição para umas boas condições de surf. O meu único receio, que estivesse demasiado grande, mas oxalá que não. Para que as tarefas diárias não voltassem a engolir a surfada e o trabalho não a espezinhasse, marquei no calendário, quinta-feira ao meio dia.

Faltavam dois dias. Depois de tantos meses sem surfar, receava que o mar estivesse maior que as minhas possibilidades. Faltava-me a condição física para enfrentar um mar potente. A confiança que levava estava semelhante à disposição da maior parte dos portugueses, abatida. Em mar grande há menos espaço para erros, a forma física é fundamental para que a confiança não vá juntamente com a carcassa parar ao fundo.

Não nos enganemos. Já tinha feito este exercício anterior, ver as previsões e marcar na agenda,  mas depois ou o mar não estava de feição, ou o trabalho tinha-se complicado ou alguma tarefa chamava por mim. Quando pesava na balança a surfada e o trabalho, o peso da responsabilidade do trabalho era sempre maior que ir para dentro de água Tantas foram as vezes que assim sucedeu, que desisti,  mas esta quinta-feira não seria assim.

Quarta-feira, fui trabalhar e no escritório a vontade de surfar já caminhava pelo peito. Concentrar-me para trabalhar difícil encargo, tinha a mente perdida a pensar como seria. Um dia mais tinha de esperar, respirei fundo baixei o pescoço e mergulhei fundo no pântano de tarefas que tinha para fazer.

As horas passaram e chegou o almoço. Arejei as rodas dentadas do raciocínio com um passeio pela vila da Ericeira. Via pranchas de surf em montras, fatos de neopreno estendidos em varandas a secarem, estrangeiros a caminharem pela calçada equipados com fatos de neopreno, longas tábuas de surf a passearem-se pela vila. Via surf em todo o lado, a vontade gritava-me desde dentro, tinha de travar o peito, para não sair disparada pela boca. Aguenta, é só mais um dia, pedi-lhe. A vontade recolhia-se como a cabeça da tartaruga para dentro da carapaça, a custo, mas regressava. À tarde consegui concentrar-me, a cabeça ficou ocupada e o dia passou mais rápido que um suspiro.

Quinta-feira chegou. Acordei às cinco horas, ainda de madrugada, ainda de noite, saí da cama, peguei no livro, sentei-me no chão de madeira ao lado de uma janela, e comecei a ler. Do lado de fora, as sebes não mexiam, não havia um respiro de vento. O ar sentia-se seco, não havia humidade no ar,  a temperatura era delicada, estávamos em Outubro, o segundo mês de verão da Ericeira. O céu estava limpo, as estrelas pareciam velas a iluminar algum caminho pelo céu ainda negro. O sossego da madrugada, o último respiro de uma noite prestes a acabar e o início de um dia que está para começar, aquela cálida e curta paz que há entre o fim e o início, celebrada com a leitura de algumas páginas do livro que andava a ler. Sustentaria este momento por algumas horas, mas a impermanência impõe-se, o bebé acordou, a minha mulher também, o dia ia começar. Banho, pequeno-almoço, fraldas, e estava na hora de sair de casa. Fui a pé para o escritório, a brisa do amanhecer sustentava a calma que ainda havia em mim e o fresco despertava-me o corpo para o dia que se erguia à minha frente.

Cheguei ao escritório. Assim que me sentei à secretária levantei-me para ir preparar um café, assim que terminei o café levantei-me para comer umas uvas. Como o arranque do motor de um barco, a cafeína começava fazer efeito e o estômago aconchegado estava com umas belas uvas brancas, tinha tudo para encetar o trabalho. Mas só para ter a certeza que as minhas previsões não estavam erradas fui dar uma espreitadela às ondas. Entrei num site de internet que passa imagens, em tempo real, de câmaras que estão apontadas para as ondas de algumas praias. Vejo as imagens. A coisa estava a compor-se, as ondas tinham pouco tamanho e estavam a formar-se bem, o vento continuava no seu descanso, só faltava a maré ficar de feição.

Trabalhava um pouco e voltava a abrir a página para ver as imagens das ondas. Levantava-me e ia à casa de banho. Pegava no telemóvel, largava o telemóvel. Que agonia. Não fazia nada e sem nada fazer sentia-me ocupado. Era a ansiedade que me mantinha agitado. Nem ia surfar, nem trabalhava, empurrava o tempo a fazer coisas sem na realidade fazer nada. Fechei todas as páginas de internet, despedi-me das distracções, olhei para o trabalho e enfrentei-o, sem nada nos bolsos, sem desculpas e comecei a trabalhar. Engrenei a locomotiva nos carris, desliguei os ouvidos, foquei os olhos apenas no monitor à minha frente, ignorei o mundo, esqueci-me quem era e onde estava, pedi permissão e abandonei todas as tertúlias na minha mente. Fiz força, dei um empurrão e esta pesada carruagem que se chama concentração aos poucos começou a mover-se, lenta e pesadamente sobre os carris. Trabalhei e quanto mais trabalhava, a carruagem mais leve ficava, e claro, melhor deslizava pelos carris. Trabalhei e trabalhei sem pensar em mais nada, longe deste mundo com a cabeça nas tarefas e nas tarefas apenas. Só assim poderia construir alguma coisa. Era eu o maquinista desta locomotiva. Estava a começar a andar a bom ritmo.

Algum tempo passou, sessenta minutos passaram. Há um momento em que desço desse estado absorto e espreito para as horas, meio dia e trinta minutos. Estava na hora. Passo os olhos pelo trabalho feito, não foi muito mas algo feito ficou.

Desço da nuvem onde estava, desliguei o computador, sai do escritório e meti-me no carro. A vontade batia-me no peito com apetite para sair, como estariam as ondas? será que era desta vez que me metia dentro d’água com a prancha? A viagem demorou cinco minutos, passei a praia do matadouro, virei para a esquerda e entrei no caminho de terra batida. O vento já tinha acordado mas ainda estava calmo, ao fundo já se via esse azul do mar que está sempre aí à tua espera.

Cheguei à Pedra branca e no estacionamento havia muitos carros, o meu primeiro pensamento, pronto não fui o único a perceber que hoje iam estar altas condições para surfar, já está demasiada gente na água. Estacionei, saí do carro, olhei para o mar e estavam apenas três pessoas na água, coisa estranha, pensei. Olhei para o lado e havia muita gente com os olhos postos naqueles três surfistas. A maior parte dos carros eram de pessoas que estavam a assistir, havia também dois fotógrafos com as lentes apontadas para onde as ondas quebravam. As ondas quebravam  quase todas no mesmo ponto de uma comprida laje de pedra. Os surfistas estavam próximos desse ponto assim como as lentes das máquinas fotográficas apontavam também para esse sítio. Será que está a decorrer aqui um campeonato? Mas não, a memória relembrou-me que o campeonato era mais a norte na praia de Ribeira d’Ilhas. Voltei a olhar para as ondas, procurando a resposta ao meu maior receio, e não, o tamanho das ondas não parecia grande, tinham tamanho mas não parecia excessivo para as capacidades que pensava ainda ter.

Um dos surfistas apanha um onda e sai disparado no ar fazendo um 360 aéreo. Uauuuuu, ouviu-se no estacionamento. Isto é, desceu a onda, surfou a onda, ganhou velocidade, e saiu disparado  pela crista da onda e no ar, permite-me que repita as duas últimas palavras, no ar, rodou a prancha 360 graus, ou seja, deu uma volta sobre si mesmo com a prancha nos pés  e voltou a entrar na onda. A esta manobra, a esta loucura chama-se 360 aéreo. Contado já é emocionante, ao vivo, parece façanha de super-herói. As pessoas que estavam a assistir era também elas surfistas, os seus carros carregados com pranchas no interior denunciavam-nas. Agora a questão que ecoava pelo ossos do meu cérebro, se eram surfistas, porque não estariam a surfar? Talvez o mar estivesse grande, voltei a olhar, mas ou os meus olhos me enganavam, e não seria a primeira vez, ou era a distância que me poderia estar a enganar. Mas pela segunda vez volto a confirmar, não estava grande. Ainda assim, a cabeça começou a ficar inundada de perguntas e dúvidas que teimavam em não descer pelo cano, entupindo as ideias e imobilizando o corpo. Senti que a história de antes se repetia, mais uma desculpa para não voltar a entrar no mar. Se calhar é melhor vir para a semana, comecei a ponderar. Nada disso, marcado para hoje é hoje que vamos entrar, ordenava-me a mim mesmo. No horizonte via-se as linhas de ondas que iam entrando na praia. As ondas rebentavam, mais uns aéreos, estes surfistas eram bastante bons, ouvia-se elogios às manobras, pouco faltava para aplausos, mas o tamanho das ondas, que ainda me preocupava, não parecia demasiado grande, ainda assim não compreendia porque é que os surfistas de terra não se metiam dentro de água.

Bom, já chega de desculpas, está na hora de desentupir a cabeça de receios, esta água estancada de pensar sempre no mesmo não me leva a lado nenhum, há que deixar a água correr e deixar os receios seguirem viagem.  Está na hora de meter este corpo quase reformado dentro d’água. Despi as desculpas, enxotei as dúvidas e comecei a vestir fato de neopreno. Durante o processo de meter o corpo dentro do fato de borracha, encontrei no chão, nesse chão de terra castanha clara, quase enterrada, uma moeda de um euro, o que significaria isto? Um momento de sorte antes de uma desgraça que estava para vir? Guardei a moeda, posso perder a vida mas pelo menos um euro já ganhei. Chegavam mais carros, mas ninguém se lançava para a água. Muito estranho, pensava. Cada vez mais pessoas a assistirem. A cabeça continuava a vacilar e o meu corpo um pouco tremia. Fato vestido, agora já não há volta atrás, agarrei nos pés de pato, na prancha e comecei a descer as escadas em direcção à praia.

Enquanto descia as escadas, olho à minha volta, alguns olhares dos espectadores fixavam-me, do outro lado as ondas a quebrarem. Senti que estava a entrar num sítio exclusivo para campeões quando eu há mais de seis meses que não entrava na água e, para fique claro, o meu nível na presente modalidade desportiva designada bodyboard não passa de aprendiz de amador. Pobres aqueles que julguem que vou brilhar, ou pobre de mim por entrar na água? Em breve iríamos saber.

Desci as escadas para a praia e senti que estava a entrar no canhão da Nazaré. Não pelo tamanho das ondas mas pela quantidade de espectadores, cerca de duas dúzias, e pelos poucos surfistas na água, apenas quatro. Uma composta plateia, mais dois fotógrafos com tripé armados de lentes maiores que o meu antebraço. Muitos olhos postos na água, surfistas muito experientes na água e depois, o contraste, a minha pessoa, mais amador que qualquer pai que se aventure na bricolage pela primeira vez.  Dizia rezas em silêncio pedindo a alguém que o meu corpo estivesse à altura da aventura que nos esperava, a mim a esta carcassa e à pouca confiança que levava dentro. Não sei a quem rezava, mas esperava que alguém ouvisse as minhas preces.  É sempre perante o desconhecido que tentamos falar com alguém que achamos estar a olhar por nós desde um ponto distante e que sabe exatamente o que nos vai acontecer ou sabe pelo menos algo mais do que nós e como tal pedimos que se de alguma forma der para dar algum jeitinho, uma abébia que seja, que por favor o faça pois nós comuns mortais não temos a mais pequena ideia do que nos espera, estamos completamente entregues à aleatoriedade da vida e pouco sabemos sobre quem somos. Uma certeza tinha, já não havia volta atrás, ia surfar.

Na orla do mar, pousei a prancha, deixei os pés de pato e fiz o aquecimento do corpo enquanto observava as ondas. O mar estava claramente maior do que pensava mas ainda assim não me assustava, também não era agora que ia desistir e subir essas escadas com a vergonha ao colo a fazer beicinho. Terminei o aquecimento, calcei os pés de pato, agarrei na prancha e esperei que o set de ondas passasse. Para aqueles que desconhecem a terminologia do surf, uma brevíssima nota. Chama-se set a um conjunto de ondas maiores que as restantes. As ondas  são formadas em alto-mar com a energia dos ventos e percorrem milhares de quilómetros até chegarem à costa. Nessas longas viagens, há ondas que se anulam, mas há outras que se juntam criando ondas maiores. Essas ondas maiores viajam juntas em grupo, que no surf são designados por set. Por cada set segue-se uma pausa com ondas mais pequenas. É nos sets que vêm as melhores ondas para serem surfadas. Final de nota.

Já dentro de água com a prancha ainda na mão, deixei o set passar, para depois aproveitar a calma que lhe segue para entrar.  Lancei-me à água, remei com os braços, uma onda rebentou à minha frente e facilmente passei por baixo e continuei a remar. A corrente levou-me para fora e fui deslizando por uma capa de espuma que cobria a superfície, resultado do set anterior que tinha passado. Em menos de nada estava lá fora, fora da linha de rebentação e a poucos metros dos outros surfistas. Cumprimentei a todos e todos retribuíram, tinham todos sotaque brasileiro e pareciam ser um grupo de amigos.

O vento acordou, inquietando as ondas e a corrente ficou mais intensa. Veio o primeiro set. A primeira onda quebrou apenas alguns metros do meu lado esquerdo, ali onde a laje de pedra está mais perto da superfície. O som da onda a quebrar era seco, oco e estrondoso como a descarga elétrica de uma trovoada seca de verão. Formou-se uma bela onda, meteu-se um dos surfistas, desceu a onda e foi a surfar para a esquerda até desaparecer. A onda estava maior do que pensava, mas ainda assim sentia-me confortável. Veio outra onda, menor que a anterior e outro lançou-se, desceu a onda e desapareceu. O mar acalmou mas a corrente não dava tréguas, tinha sempre de estar a remar para estar no pico. Mais um jargão da modalidade, pico é a palavra usada para designar o melhor ponto dentro de água onde as ondas rebentam. Esse é o sítio onde há que estar para apanhar ondas. Sendo esta uma praia de fundo de rocha, o pico é sempre no mesmo ponto, pois são os fundos do mar que definem o ponto onde a onda vai rebentar e uma vez que um fundo de pedra não se altera como os fundos de areia, o pico é matematicamente sempre no mesmo ponto.

A corrente levava-me sempre para o interior do pico, mais a sul. O interior deste pico, é um sítio onde não queremos estar por duas razões. A primeira e mais importante é que aí não conseguimos surfar a onda, porque fecha-se não deixando espaço para ser surfada. A segunda razão, com a velocidade que a onda fecha é muito provável que levemos com a onda na cabeça e como há pouca distância com as rochas do fundo, a onda fecha-se com a força de um martelo, martelando-te para o fundo aí onde as rochas, que nunca fogem, te esperam. Havia que estar mais para norte, ou seja, mais à direita, ligeiramente à direita do pico para poder descer a onda.  A corrente essa levava-me sempre para onde não queria, para contrariar havia que remar com os braços ou dar aos pés.

Veio a próxima onda, olho para os lados e era o único no pico, esta era para mim. Posicionei-me no que me pareceu ser o melhor lugar, a parede ergueu-se e antes de poder pensar em alguma coisa, já estava no cimo da onda. Comecei a descer e que altura tinha o bicho, para a direita a onda ia fechando, para a esquerda abria-se um lindo caminho e foi nessa direção que me lancei. Desci num tiro, olhei para o lado direito e era um monstro de espuma que engolia tudo na sua passagem e eu na boca desse linda besta. No lado esquerdo, para onde eu ia disparado, ergueu-se uma gorda montanha de água. Desço para o sopé e antes de perder velocidade, subi um pouco a parede e posiciono-me no meio, a meia altura da montanha. A onda ia fechando e eu subindo e descendo essa parede escapando-me dela, uma dança no olho do furacão. É a vida a correr-te pelas veias quando sentes a vida em perigo.

Cheguei ao final da onda, a energia corria-me pelo corpo, o poderoso sentimento de estar aqui e estar vivo. Voltei a remar para passar a rebentação. Passei a rebentação e sempre a remar contra a corrente esperei.

Outra onda veio e outra apanhei, mais pequena que a anterior mas com ainda assim com força, com potência. Fui até ao final e voltei para passar a rebentação. Tudo estava a correr de feição, estava a construir uma sólida quantidade de confiança e satisfeito por voltar a surfar. O corpo não esquece aquilo que já aprendeu.

Enquanto esperava, juntamente com os outros surfistas por mais um set, passou uma mota de água a uns cem metros de nós. Seguramente para dar apoio ao campeonato de surf que estava a decorrer ali ao lado, em Ribeira D’Ilhas. Hoje lembro-me destas imagens, como um curto vídeo projectado na minha mente. Um vídeo composto por três momentos, todos, em câmera lenta. Primeiro momento, a moto d’água a passar, segundo momento, o condutor a olhar-me fixamente nos olhos, parecia que sabia o que estava para acontecer, terceiro e último momento a mota de água a desaparecer. Ouvia o vento a entrar-me pelos ouvidos e o som constante do motor da mota.

Logo a seguir, desenharam-se umas gordas linhas, como se fossem lagartas, atravessadas à nossa frente a deslocarem-se a grande velocidade. Esta onda era maior que qualquer uma das anteriores e iria rebentar antes do ponto onde estávamos. Remei e dei aos pés o mais rápido que pude e a três metros à minha frente levantou-se uma imensa parede e estava a ponto de colapsar. A onda rebentou e uma massa de água avançou como um trator varrendo tudo por onde passava, e eu era apenas uma migalha de miolo de pão no seu caminho, com a prancha mergulhei por baixo da onda.

Lá no fundo com a escuridão e os ouvidos a darem sinais pelas diferenças de pressão, senti a massa de água a voar-me por cima e quando pensava que já tinha passado, agarrou-me pelas pernas e levou-me com ela. Fui arrastado e enrolado, dei umas quantas voltas no tambor da máquina de lavar antes de conseguir chegar à superfície. Estava tudo bem. Esta era apenas a primeira onda do set. Seguiu-se mais uma, mergulhei e consegui desta vez não passar pelo programa de lavagem. Logo a seguir veio outra e eu  já com pouco fôlego. O coração a mil rotações consumiu o pouco ar que restava nos pulmões. A baixa forma física era gritante, mas não havia tempo agora para pensar nisso, a onda rebentou dois metros à minha frente, enchi os pulmões e mais uma vez mergulhei. Senti a força da onda a passar-me a mão pelo lombo e consegui, escapei-me. Vim à superfície e um mar de espuma envolvia-me, no horizonte já não havia mais ondas a caminho, subi a custo e atirei o fardo pesado do meu corpo para cima da prancha. Mal conseguia levantar a cabeça. Queria parar e tomar fôlego mas primeiro tinha de sair da zona de rebentação. Dei aos pés e aos braços e comecei a remar.

Uns minutos passaram e outro set vinha a caminho. Esta vez, ainda maior que o anterior. Remei e remei, porra não acredito que vou ser varrido outra vez, pensei. Já respirava pela boca, com a língua de fora. A onda ergueu-se à minha frente… não vou conseguir passar, pensei. Mas passei, por milímetros mas escapei. Que alívio, puxei a prancha e sentei-me. Não havia dúvidas o mar estava a crescer.

A maré estava a subir e a ondulação também. As ondas de set quebravam mais longe da praia, entre cada set, as ondas mais pequenas, rebentavam mais perto da areia.

Tentei apanhar uma onda, lancei-me com a massa de água mas de seguida puxei a prancha como quem puxa as rédeas de um cavalo à beira do precipício. Antes de dar meia volta ao cavalo espreitei e o desnível da onda antes de rebentar era um enorme buraco e estava prestes a fechar-se todo de uma vez. Dei meia volta e ouvi o estrondo da onda a fechar-se, toda essa massa de água a cair.

Os sets vão passando, e nenhum surfista se lançou. Talvez fosse o vento, mas as ondas já não estavam com vontade de serem surfadas.

O tempo foi passando as ondas também, e eu sempre a dar aos pés para contrariar a corrente e manter-me no mesmo ponto. Havia apenas uma mulher surfista que continuava a surfar. Estava mais perto da praia, antes da linha de rebentação e apanhava as ondas pequenas fora do set. Essas ondas eram bem melhores que qualquer uma do set.

Ainda assim, continuei no mesmo sítio e os sets continuavam a vir, cada vez maiores e eu sem surfar e sem nada para fazer. Não tinha relógio mas provavelmente duas horas já tinham passado. Olhei para a praia e várias pessoas continuavam nas rochas e no parque de estacionamento a assistirem.

Entretanto o tempo entre cada set começou a aumentar, a espera fazia-se longa mas a surfista que estava nas ondas mais pequenas não parava de surfar. Bom, está na hora de experimentar essas ondas mais pequenas, pensei. Comecei a remar mais em direção à praia. O vento era cada vez mais forte, a maré estava mais cheia e o mar mais mexido.

Separei-me do grupo de surfistas e fiquei mais próximo da surfista que andava ali pelas ondas pequenas. Tentei encontrar o lugar onde ficar à espera, tentar perceber onde iria a próxima onda rebentar. Durante a espera, distraí-me em pensamentos e por momentos desliguei-me do espaço e fiquei a navegar pelas ideias. Nada de ondas, apenas vento.

Com a distração, deixei de dar ao pés e fui levado, sem aperceber-me, pela corrente. Enquanto esperava por alguma onda mais pequena, essas que vêm fora do set, eis que sou surpreendido por uma parede de dois metros de altura de água a apenas alguns metros à minha frente.

Dei aos braços, aos pés, e com todas as partes do corpo, pus tudo o que tinha e hipotequei o que não tinha para que tivesse mais energia, um par de rezas à mistura, mas tudo foi em vão. A onda estava prestes a rebentar à minha frente e foi aí que me apercebi que estava no único ponto onde não poderia estar, no interior do pico, aí onde a laje está mais à superfície, aí onde a onda quebra oca e com mais violência. Rebenta dois metros à minha frente, era enorme, a descarga foi tremenda. Mergulhei mas ela não me deixou recusar esse convite para a festa, agarrou-me, enrolou-me, embrulhou-me, deu-me voltas, reviravoltas e piruetas. Eu só pedia que fosse suave quando me apresentasse às suas amigas, as senhoras rochas. Agradecido fiquei por não ter sido pessoalmente apresentado às amigas rochas. Vim à superfície e vi outra onda rebentar. Mergulhei mais uma vez e mais uma vez  puxou-me pela mão e levou-me na sua dança e enrolou-me como tão bem o sabe fazer. Sem saber para onde ficava a superfície apenas podia esperar que o baile acabasse para depois respirar. Nos pés senti o carinho das rochas, foi uma breve introdução, apenas um toque. Estava tudo bem.

Voltei à superfície e olhando percebi logo onde estava, estava mesmo em cima da laje. Já tinha percorrido metade da laje e já que estamos aqui porque não acabar o serviço? Rebentou última onda de set, mergulhei e mais uma vez enrolado fui. Percorri o que restava da bancada de pedra como quem é arrojado pelo barra de um bar, com uns beijinhos, como manda a etiqueta quando se conhece alguém, ali e aqui nas senhoras rochas mas nada de grave. Quando finalmente me levanto tenho água abaixo da cintura e a cabeça como uma cerveja de lata agitada.  Eu e o meu cavalo tínhamos sido gentilmente convidados a sair daquele salão de baile.  Imagino o espetáculo que deve ter sido para quem nos viu desde a praia e do parque de estacionamento. Agarrei a prancha, olhei para o mar e estava enorme. Pensei por uns minutos em voltar, mas a mensagem tinha sido clara, estava na hora de seguir viagem.

Derrotado sai da água, de rastos, acabado, em esforço tirei os pés de pato, agarrei na prancha e estava na hora de enfrentar as escadas.

Subi degrau a degrau sentindo os olhares postos na minha pessoa. Primeiro invadiu-me a vergonha de ter sido enxotado pelo mar, depois veio a resposta, ah porra que se dane, vim surfar, apanhei umas ondas e estou vivo, isso é que importa. Depois olhei para as pessoas e ninguém estava a olhar para mim. Era tudo ideais da minha cabeça. As pessoas tinham melhores coisas com que se entreter.

Cheguei ao carro de queixo erguido, com força puxei a confiança que no lodo ficou depois daquela passagem pela laje de pedra,  levantei-a para que visse a luz e fosse iluminada pelo sol. Despi o fato de borracha, guardei a prancha, arrumei o material todo. Olhei o mar de frente, estava grande e pesado, e eu, nutrido por ter alimentado essa vontade que levava meses abandonada dentro de mim. Há menos tralha nas arrecadações das minhas entranhas, há menos uma parte do meu corpo adormecida, há mais vida em mim.

Antes de entrar no carro e ir-me embora, continuei de pé a ser acariciado pela maresia e deixei que esse sentimento de estar vivo continuasse a dançar dentro de mim.

As vontades que levamos dentro são partes de nós que nos definem. São essas vontades que nos fazem conectar com a nossa essência, o nosso carácter distintivo, a nossa natureza única. Quando nutridas, essas vontades alimentam com abundância o rio de amor que corre dentro de nós. O amor é a razão por estarmos todos hoje aqui, foi o amor que nos fez e de apenas amor fomos feitos, esse é o maior milagre da vida.

Quando deixamos de nutrir essas vontades, elas escondem-se em lugares remotos do nosso corpo, com o tempo hibernam e se nunca mais forem nutridas acabam por desaparecer. Perdidas as vontades, o rio de amor que levamos dentro acaba por secar. Questionamo-nos sobre o que andamos aqui a fazer. Continuamos vivos por fora mas secos, vazios de amor por dentro. Vivemos para executar as tarefas, há sempre uma tarefa que nos espera, e desligamos da nossa essência, passamos a ser mais uma pessoa e esquecemos que cada um de nós tem uma natureza única.

O mar está sempre aí à nossa espera, assim como o amor está em todas as coisas.

Foto: Matt Hardy